Agora que o ano de 2010 realmente começou, já que foi-se o Carnaval, reinauguro o blog. Aliás, já estava ansioso por voltar a escrever, principalmente devido a um acontecimento ocorrido no período intermediário entre um ano e outro (como considero o tempo entre 24 de dezembro e a "quarta feira de cinzas"). Explico: após algumas tentativas fracassadas - perdoem-me pela redundância - de que fosse realizado um evento de harmonização entre cervejas e comidas, a tal ideia saiu do papel no início deste mês. Como tratava-se de um período intermediário, como disse anteriormente, não me foi possível escrever sobre o almoço logo quando este se realizou, mas, de volta à normalidade, falarei sobre o que foi, pelo menos espero, o primeiro de muitos "almoços de domingo na Nygri".
Primeiramente, devo agradecer ao Julio Nigri, dono da delicatessen especializada em cervejas importadas que leva o nome de sua família, composta, aliás, pelo "Seu Marcos" e pela "dona Elza" (pais do Julio), os quais esbanjam simpatia sempre que se entra na pequena loja localizada na Rua Uruguai, perto da esquina com a Conde de Bonfim, na Tijuca. Pequena, sim, mas certamente um dos melhores locais para se degustar uma cerveja! Tudo bem que não é necessário fazer propaganda (o "boca a boca" é o grande lance!), mas vale ressaltar as qualidades dessa casa que permanece um ambiente familiar e aconchegante e que completa 27 anos em 2010. Mesmo contando com apenas um funcionário, o folclórico Deuzimar, ninguém (ou quase ninguém) espera para ser atendido, até em dias de lotação esgotada, e todos os produtos são de altíssima qualidade.
Devidamente apresentado o local do evento, passo para o menu, com inspiração basicamente mediterrânea e que foi composto de aperitivo, entrada, prato principal e queijos: Homus tahine e Mhammara (pasta de pimentão vermelho) com torradas e pão árabe; Salada de aspargos verdes frescos com queijo Feta, ervas e cebola roxa confit; Ragout de cordeiro com feijão manteiga; Roquefort e Old Dutch Master, respectivamente.
Seguindo a sequência dos pratos, foram sugeridas algumas cervejas que, possivelmente, fariam boa combinação. Para as pastas do início, foram sugeridas a belga Duvel (somente para quem gosta de fortes emoções), a Hacker-Pschorr anno 1417, que se portou muito bem ao lado de ambas, e, após intervenção do caro LG, que dispensa comentários, uma English IPA da Greene King, que ficou ótima, segundo ele, com o Mhammara. Para a salada foram sugeridas a Tripel Karmeliet, bem frutada e complexa, com alto teor alcoólico, a Czechvar mais leve e bem equilibrada, e a campeã da etapa, Estrella Damm Inedit. As sugestões para o cordeiro foram as seguintes: Traquair House Ale, uma ale escocesa armazenada em carvalho, escura e forte, que gerou um ótimo casamento; La Trappe Dubbel, que também se portou muito bem; e a Strong Suffolk, mais uma ale britânica armazenada em carvalho, escura e forte, que não deixou por menos. Para o Roquefort foi sugerida a Chimay Bleu ou a Paulaner Salvator. Para o Old Dutch Master, a própria Salvator e as Westmalle (Dubbel e Tripel). Optou-se pela Paulaner Salvator, uma doppelbock avermelhada, frutada e forte, com notas de malte torrado bem presentes, já que, apesar de não ser tão assertiva em relação a qualquer dos queijos, imaginava-se que se portaria bem com ambos. E foi o que aconteceu. Certamente, outras opções seriam melhores, como no caso das duas indicações para o queijo holandês, mas não houve decepções.
É sempre bom lembrar que harmonização é uma coisa extremamente subjetiva. O que para um parece ótimo, para outro pode não ser agradável. Por isso, é importante experimentar e seguir as suas preferências de paladar, ainda que, é claro, não possam ser deixados de lado os fundamentos.
Quanto à avaliação dos convidados sobre a comida: eles foram bem educados...
...e como disse antes, espero que haja outros.
Um abraço e até a próxima.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Degustação 4 - St. Bernardus Abt 12
Informações básicas:
Nome: St. Bernardus Abt 12
Cervejaria: St. Bernardus
Tipo: Quadrupel
Teor Alcoolico: 10%
Comentários:
A cervejaria St. Bernardus, localizada na região de Watou (sudoeste da Bélgica) foi inaugurada em 1930 como uma fábrica de queijos. Em 1946, começou a produzir cervejas para o monastério trapista de Westvleteren e o fez até 1992, quando houve o término do contrato. Vale aqui um comentário: as cervejas produzidas, hoje, na própria abadia cisterciense de St. Sixtus estão entre as mais cobiçadas do mundo, o que se deve, além da qualidade inegável, à dificuldade de obtenção. Isto porque ela só pode ser adquirida por pessoa física na própria abadia. O único estabelecimento comercial autorizado a vendê-las é o bar localizado em frente ao local de produção, chamado In de Vrede, onde se pode degustá-la a um preço acessível (no Brasil, paralelamente, as Westvleteren são vendidas a R$100,00 cada garrafa de 330 ml). É importante que se leve isso em consideração, visto que a mais aclamada das cervejas trapistas de Westvleteren - a 12 (doze) - é feita seguindo a mesma receita da St. Bernardus Abt 12 (ou vice-versa). Enfatizo que não se trata da mesma cerveja, porém, de fato a receita é igual.
Trata-se de uma ale escura e forte (como todas as quadrupel belgas) de alto teor alcoolico. Sua cor fica entre âmbar acobreado e um castanho escuro. É ligeiramente turva e opaca, com espuma bege-claro, alta, densa e persistente (ainda que diminua de tamanho com o tempo). Deve ser servida a uma temperatura amena (8 a 12 ºC) como de costume para este estilo.
Seu sabor é equilibrado entre doce e amargo, com aroma frutado (uvas maduras e uvas passas) e presença do álcool significativa. A combinação deste final bem alcoolico com o paladar de uvas passas (também tem um quê de chocolate com outras frutas, mas menos significativo) me fez lembrar uma bebida comum na Itália, o Vinsanto e, mais especificamente, um "passito" - como chamam comumente - encontrado somente na Liguria, o Sciacchetrà, apesar de normalmente o vinho do porto ser indicado como elemento "presente" nesta cerveja.
Tudo isso me leva a crer que uma harmonização com "cantuccini", biscoitos feitos basicamente de amêndoas, com ou sem uvas passas, seria uma boa ideia, considerando-se que, na Itália, isto é o normal - Cantuccini com Vinsanto. À parte minha epifania gustativa, pretendo seguir o clássico que é harmonizar a Abt 12 com um queijo azul (de preferência não muito forte e envelhecido). Ficaria bom com um Gorgonzola Dolce talvez, ou um Roquefort novo e mais leve.
Gostaria muito de poder comparar a St. Bernardus Abt com a Westvleteren sem precisar ir até o In de Vrede, mas pelo visto, só me resta esta alternativa. Lamentável!
Sem ironias, fico por aqui.
Um abraço e até a próxima.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Degustação 3 - Orval
Cervejaria: Brasserie d'Orval (Abbaye Notre Dame d'Orval)
Envasamento: 03/12/2008
Teor alcoólico: 6,2%
A história desta cervejaria é, sem dúvida, uma das mais interessantes. Segundo a lenda, a condessa Mathilde da Toscana, deixou cair seu anel de ouro num lago na região de Florenville, na província de Luxemburgo, sudeste da Bélgica. Preocupada, pôs-se a rezar fervorosamente e prometeu que, se a obtivesse de volta, se empenharia em construir uma abadia no local. Eis que uma truta salta e devolve-a a joia, e, logo, a senhora passa a fazer cumprir a sua promessa.
Justamente por isso há, no rótulo, um peixe com um anel dourado na boca, e, inclusive, é a partir desta lenda que a região passa a se chamar Orval (ou vale do Ouro).
Deixando de lado as fantasias (ou nem tanto), seguimos com alguns comentários sobre o único produto comercializado produzido neste monastério trapista (além desta cerveja, é produzida também a "Petit Orval" destinada ao consumo dos próprios monges e vendida apenas no pub em frente ao mosteiro).
A Orval é, a meu ver, uma cerveja excelente, porém admite opiniões diversas. Há quem a ame, mas há quem a deteste. Realmente ela possui uma drinkability difícil, o que se deve a, basicamente dois aspectos: 1- ela é extremamente lupulada-seca; 2- a levedura selvagem brettanomyces confere um sabor e um aroma de matéria orgânica úmida (floresta) e couro. Por isso é uma cerveja bastante seca, amarga e austera. Seu aroma lembra frutas escuras (ameixa), condimentos, mas predomina o caráter selvagem da levedura.
A cor é âmbar dourada, ligeiramente turva, com espuma branca, alta e densa.
Excelente opção para acompanhar um steak tartare devido ao frescor da carne, o qual harmoniza bem com a secura e o amargor da cerveja. Na falta de uma boa carne crua (já que não se pode comer carne crua em qualquer lugar) experimente um rosbife (de preferência num bom sanduiche com rúcula e queijo cremoso).
Em suma, quem gosta de cerveja deve provar a Orval. Amando-a ou odiando-a, ela é, acima de tudo, um clássico, e ao mesmo tempo, diferente de qualquer outra no mundo.
"Quem ama cerveja se apaixona a cada minuto: distância (de tempo) ideal entre um e outro... gole"
Até a próxima.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Degustação 2 - Gouden Carolus Tripel
Nome: Gouden Carolus Tripel
Cervejaria: Het Anker
País: Bélgica
% de álcool: 9,0%
Validade: 16/07/2010
Comentários
Cerveja dourada, alaranjada e ligeiramente turva. Creme branco, bastante denso (muito bonito), com boa retenção nas laterais do copo.
O aroma é bem rico, logo que se abre a garrafa percebem-se notas florais e lúpulo. Bastante perfumada (agradável)!
Esta cerveja se caracteriza pelo sabor cítrico (ainda que não ácido) lembrando laranja ou tangerina, bem como por suas notas adocicadas (mel), as quais convivem muito bem com um amargor (lúpulo) significativo, estabelecendo-se um equilíbrio necessário. O final é amargo, mas sem exageros, e adstringente, com leve percepção de álcool.
Excelente cerveja, cuja harmonização com frango ou leitão assado com laranja (prato principal) ou simplesmente com um queijo holandês não muito fresco, mas também não tão envelhecido - acho que o Old Dutch Master seria uma boa escolha, já que trata-se de um queijo denso, mas ainda cremoso, com notas adocicadas - se apresentaria bem. Vale experimentar!
Até a próxima!
Um abraço.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Degustação I - Achel Blond
Dados da cerveja
Nome: Achel Trappist Blond
Cervejaria: Trappistenabdij de Achelse Kluis
País: Bélgica
% de álcool: 8,0%
Validade: 26/11/2009
Comentários
Cerveja dourada, ligeiramente alaranjada, com espuma extremamente abundante, logo que é servida (depois diminui), persistente e com bolhas de tamanhos variados (umas bem pequenas formando um creme mais denso no centro do copo), o que não é o mais aceitável para esta cerveja, que costuma apresentar creme bastante denso e perene - isto se deve, provavelmente, a problemas no transporte, ou até à proximidade da data de vencimento. Há grande quantidade de partículas suspensas (claras e pequenas).
O aroma é frutado, ainda que discreto. Difícil de identificar. Lembra frutas frescas (damasco?). O sabor é ótimo, delicado, com significativa percepção de levedura. O fim é bom e a sensação de álcool existe, mas em harmonia com o resto. Boa carbonatação. Sensação agradável.
Ótima cerveja, ainda que, dentre as trapistas, não seja uma das minhas favoritas.
A harmonização com um queijo curado e gorduroso (parmesão, pecorino, grana padano, entre outros) é excelente. A carbonatação corta a gordura e o ligeiro amargor, juntamente com o álcool do fim, se integra muito bem com o gosto forte do queijo (gosto tal que se deve justamente ao "envelhecimento" deste).
obs: vale ressaltar que esta cerveja deve ser consumida "cedo", ou seja, próximo à data de envasamento.
Um abraço, e até a próxima.
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